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100 anos da Revolução de Outubro e revolução tecnológica – 2ª parte
Sábado, Janeiro 6, 2018

As metamorfoses então operadas estão agora, muitos anos depois, a dar sinais de inconformismo e raiva acompanhados por uma descrença generalizada no sistema partidário dominante, mas com enfoque na social-democracia e na democracia cristã, ou seja naqueles que foram governo e prometeram mas não cumpriram sistematicamente, convencidos da sua inimputabilidade política. Os recentes actos eleitorais nos EUA, na França, na Holanda, na Itália, em Espanha, na Grécia significaram desastres eleitorais para os partidos socialistas amplamente conotados com práticas políticas da direita que prometeram um capitalismo de rosto humano, em que a riqueza produzida seria mais bem distribuída e sem o recurso à luta.

Este processo teve gestação lenta, porém segura, reportada aos finais do século passado, com o advento do eurocomunismo.

A Itália dos anos 70 do século passado era um laboratório de ideias. Como contraponto ao denominado pensamento ortodoxo, intelectuais brilhantes desenvolveram teses inovadoras que acreditaram poderem conduzir a classe operária ao poder por meios não violentos.

O pensamento marxista foi enriquecido por intelectuais das várias áreas do saber que pensando a prática que os rodeava eram verdadeiros continuadores do brilhantíssimo Gramsci.

O cinema, por exemplo, brindou-nos com obras-primas como “a classe operária vai para o paraíso”, de Élio Petri, ou o fabuloso fresco “1900”, de Bertolucci, propondo-nos meditação séria e atenta sobre o devir do trabalho moderno, a automatização crescente dos processos produtivos, a armadilha da produtividade, o pleno emprego e a apropriação da mais-valia e daí à consciencialização de classe versus alienação era o passo de um anão, como diria Godinho.

No plano das ideias Itália tornou-se diletante, com a contínua e insensata busca pelo diferente, da inovação pela inovação, mas os olhares que acrescentou no campo fértil da lutas das ideias permite hoje uma abordagem consistente sobre a robotização, a inteligência artificial e as novas formas de trabalho.

Acompanhando o que se passava à sua volta sem nunca se prostituir, o PCP soçobrou e tirou partido do que de positivo foi acrescentado ao pensamento marxista. Na posse desse valioso instrumental deu um passo que parecendo curto era porém de gigante e temerário para a estrutura partidária: acrescentou a partido da classe operária um “e de todos os trabalhadores” abrindo desse modo a porta a uma maior representatividade e mais do que isso, acompanhando os novos tempos que se anunciavam.

Agora, quando em cima da mesa surgem debates sobre o trabalho do futuro e o futuro do trabalho, quando alguns discutem o declínio irreversível da segurança social e das reformas e pensões, o PCP, coerentemente, bate-se por uma justa e equilibrada repartição da riqueza impulsionada pelas novas tecnologias, opondo-se a que os ganhos tecnológicos revertam apenas para o capital.

É neste contexto de substituição de mão-de-obra por robots que surge a exigência de melhores salários e menos tempo de trabalho, decisão que parecendo fora de moda corporiza aspirações profundas dos trabalhadores e reafirma o PCP como vanguarda que sabe apontar o caminho.

Cem anos após a Revolução de Outubro de 1917 na Rússia entre as trevas de um novo dia anunciam-se novos motivos para acreditar na humanidade.